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As mulheres podem acabar com a cultura do estupro

Por Natália Portinari  (14-185)

Qualquer um que é familiarizado com o movimento feminista já ouviu a frase “não ensine a mulher a não ser estuprada e sim o homem a não estuprar”, ou conhece a campanha que diz que “os homens podem acabar com a cultura do estupro”. Sempre ouvimos falar o que os homens têm que fazer para acabar com o machismo, o que é previsível, já que o feminismo aponta uma opressão de homens sobre mulheres na sociedade. Essas campanhas têm sua importância, e é obviamente bom que ensinemos homens a não estuprar e a considerar as mulheres como indivíduos iguais a eles. No entanto, talvez seja mais relevante ainda ressaltar o papel que as mulheres devem ter na mudança que o feminismo propõe.

Se acreditamos que a sociedade hoje se estrutura de uma maneira em que os homens estejam em posição hierarquicamente superior às mulheres, devemos propor que os sujeitos dessa mudança sejam principalmente as próprias mulheres. Não porque os homens não estejam capacitados a opinar sobre o machismo da mesma maneira que as mulheres, o que eu acredito que estão – com um mínimo de empatia e solidariedade os homens podem perceber os males sofridos pelas mulheres, assim como perceber que o estereótipo de macho imposto a eles também é opressivo e limita a personalidade masculina. Devemos focar nas mulheres porque elas são as principais vítimas, e enquanto as vítimas de um comportamento agem como se ele fosse esperado ou razoável, é muito mais difícil que as coisas mudem. Vou ilustrar o que eu quero dizer com um exemplo.

É muito comum que os homens acusados de estupro aleguem que a vítima “disse não, mas quis dizer sim”. Seria possível afirmar que só homens muito imbecis fariam sexo com alguém nessas condições, o que com certeza é verdade, mas não é o foco da discussão. A questão é o que leva esses homens imbecis a usarem essa desculpa, e na realidade é uma ideia que está muito enraizada na nossa cultura: a de que as mulheres têm um pensamento misterioso e indecifrável, obscuro por essência, e que os homens têm que adivinhar o que se passa na cabeça de uma mulher ao invés de conversar com ela para descobrir. É uma ideia associável a de que as mulheres são irracionais e sentimentais, o que leva elas a serem terrivelmente confusas sobre o que elas querem.

Essa imagem da mente feminina é fortemente aceita pelas próprias mulheres, que são ensinadas a dizer não quando, de fato, querem dizer sim. As mulheres aceitam para elas mesmas que não podem falar de maneira direta sobre o que querem, especialmente quando se trata de um ímpeto sexual ou amoroso – elas devem apenas insinuar o que querem para se deixar serem conquistadas pelo homem. Pois bem, nesse caso, é infinitamente mais útil que ensinemos as mulheres a expressar o que sentem com clareza e decisão do que ensinarmos os homens a levar ao pé da letra o que as mulheres dizem, porque essa segunda estratégia só levaria, no mundo de hoje, a vários homens que não conseguem ficar com mulher nenhuma. Os homens podem e devem levar mais a sério o que sai da boca de uma mulher ao invés de tentar ler mensagens subliminares, mas o verdadeiro agente de mudança é a mulher que faz sua vontade ser ouvida e se impõe quando é necessário.

Cada mulher que rejeita sexo no primeiro encontro mesmo se estiver com tesão, que responde um convite pra sair de uma maneira esquiva quando queria dizer sim, entre mil outros exemplos, é responsável por cada homem que pensa que a menina que ele estuprou quis dizer sim, mesmo tendo dito não. Não é uma questão de culpa, é claro, que é exclusivamente do estuprador, e sim de responsabilidade, que é partilhada entre opressores e oprimidos que aceitam uma situação como ela está dada. Infelizmente, não vivemos em um mundo perfeito em que o ato de uma mulher abrir mão de sua força de vontade e individualidade traz consequências apenas para ela. Vivemos num mundo em que as mulheres têm a obrigação de se erguer contra esse tipo de estereótipo coletivamente, sendo pessoas firmes em suas decisões e mostrando que são tão racionais quanto qualquer outro ser humano. Se essa mudança não vier das mulheres, não fará sentido e não será eficiente.

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